Criador de Subcomissão da Copa na Câmara diz que 
São Paulo está recebendo ordens da Fifa
(R7 - 21/06/2011)

Tião Farias fala que é absurdo obedecer uma 'entidade que está sob suspeita'

Criador da Subcomissão da Copa do Mundo na Câmara Municipal, o vereador Tião Farias, do PSDB, disse que os políticos de São Paulo estão recebendo ordens da Fifa nas ações voltadas para a Copa do Mundo de 2014. O parlamentar vê ainda semelhança entre o caso do Fielzão, estádio de São Paulo na Copa, e o do retorno do Fusca, em 1994. Naquela época, o então presidente do Brasil, Itamar Franco, sugeriu a reedição do veículo e foi atendido. Para Tião, a arena do Timão só será construída agora porque foi um pedido do ex-presidente Lula.

Em entrevista exclusiva ao R7, o vereador explica por que é contra os incentivos fiscais para o estádio do Corinthians. Diz que uma cidade como São Paulo também deveria se valer de sua força econômica nesse momento, e não “abaixar a cabeça e dizer amém para tudo”. 

A intenção da Subcomissão da Copa é fiscalizar os setores envolvidos com o Mundial. Para isso, os vereadores já levaram ao plenário duas figuras centrais na organização do torneio na cidade: o secretário Especial da Copa do Mundo , Gilmar Tadeu Ribeiro Alves, e o coordenador do Comitê Estadual, Emanuel Fernandes, que também é secretário estadual de Planejamento e Desenvolvimento Regional. Os dois, porém, pouco esclareceram sobre a arena escolhida para a abertura da Copa.

Leia abaixo a entrevista completa com Tião Farias: 

R7 – Por que você decidiu criar a Subcomissão da Copa do Mundo em São Paulo? 


Tião Farias - A idéia de criar a subcomissão aconteceu porque a cidade de São Paulo precisa que um órgão público, como a Câmara Municipal, acompanhe tudo isso. E também para não deixar acontecer aquilo que estão tentando fazer agora, que é a questão da renúncia fiscal. Isso é algo que até dá para entender porque está acontecendo, mas o perigo desse negócio todo é que estamos mexendo com a Zona Leste. É necessário investimento no Polo Institucional de Itaquera, e a Copa do Mundo deve acelerar as obras de infraestrutura que precisam ser feitas lá. Agora, renúncia ou incentivo fiscal, já é uma coisa que eu sou contra. Nós não temos o direito de aprovar algo que vai onerar a cidade como um todo. 



R7 – Como o senhor vê a questão dos incentivos fiscais? 
Tião Farias - Isso é uma violência, estão fazendo graça com o dinheiro que é do povo. Temos que tomar cuidado porque daqui a pouco vão dizer que somos contra a Copa do Mundo, contra o Corinthians, contra a Zona Leste. Eu sou favorável à Copa do Mundo em São Paulo. Mas estamos em uma condição em que estamos recebendo ordens da Fifa, uma entidade que está sob suspeita, com várias acusações graves. Nós não podemos simplesmente dizer que está tudo bem, dizer amém. Nós temos aqui uma estrutura que precisa ser respeitada. Esse negócio mesmo do veto ao Morumbi agora parece muito mais uma coisa política do que objetiva para a cidade. 


R7 – O senhor tem conversado com representantes da cidade na organização da Copa em audiências na Câmara. Eles deixaram claro se há a garantia de que a cidade fará a abertura do Mundial? 
Tião Farias - A Copa é uma caixinha preta, eu não sei o que está acontecendo. Falta transparência. O presidente do Corinthians já disse que não tem nada a ver com a abertura da Copa aqui na cidade. Mas a quem interessa a abertura da Copa? Dá para fazer os jogos em outro lugar? Então vamos fazer. Até porque o povo de Itaquera não vai assistir às partidas da Copa, isso é tudo para turistas e para o pessoal da Zona Sul. O povão mesmo vai assistir nos telões do Anhangabaú, na praça da Sé, nos bares. Tudo isso para a abertura não se justifica. 



R7 – O jornal O Estado de S. Paulo divulgou na sexta-feira (17) que o prefeito Gilberto Kassab liberou R$ 50 milhões em emendas para os vereadores. O que o senhor sabe sobre esse assunto? 
Tião Farias - Eu não tenho nenhuma emenda. O prefeito estava cuidando do novo partido dele, agora está cuidando da cidade, só que de uma maneira meio torta. Como também tem eleição no ano que vem, essas coisas acontecem. Quem sofre com isso é a cidade. 



R7 – Existe uma explicação lógica para os vereadores aprovarem R$ 420 milhões em incentivos fiscais para um clube que ainda não assinou nem o contrato com a construtora responsável pela obra? 
Tião Farias - Esse negócio do Corinthians me faz lembrar de quando o Itamar Franco era presidente, que ele teve a ideia de reeditar o Fusca. Como o pessoal gosta de bajular, a Volkswagen foi lá e montou de novo a linha de Fusca. O Lula é corintiano e aí acontecem essas coisas. Na primeira audiência pública que teve aqui na Câmara eu perguntei onde está o instrumento jurídico desse empreendimento. Cadê o contrato, quais são as obrigações? Além de eu ser contra a renúncia fiscal, eu até agora não vi um projeto, com começo e fim, com responsabilidades, organograma. Ainda não me esclareceram nada. Foi feito um requerimento e eu perguntei para o Secretário Especial da Copa, Gilmar Tadeu, se ele tinha conhecimento de algum contrato. Senão daqui a pouco a Odebrecht faz que nem a Volkswagen, que parou de produzir o Fusca, e resolve parar a obra também. Quando eu questionei o Secretário sobre a existência de algum documento sobre o estádio, ele disse que também não teve acesso a nada. Ele assumiu faz cinco meses e deve estar mais perdido do que cachorro em passeata. 



R7 – Como o senhor vê a visita do presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, à Câmara Municipal nesta terça-feira (21)? 
Tião Farias - Acho que é um direito dele vir aqui defender o clube. Eu acho que o governo federal, estadual e municipal deve mesmo investir em infraestrutura na região, afinal, São Paulo é uma cidade de serviços. Só que o Estado deve ir só até a porta do estádio. Ali dentro é uma coisa da iniciativa privada, até porque eles é que vão ter lucro com isso. A princípio todo mundo quer a Copa do Mundo, mas não pode abaixar a cabeça para os senhores da Fifa. Temos que fazer valer a nossa autoridade e pensar no outro lado também, que sem São Paulo não tem Copa do Mundo. Os anunciantes, o mercado, também precisam da cidade. 



R7 – A subcomissão da Copa será mantida na Câmara? 
Tião Farias - É uma farra desgraçada com o dinheiro do povo, mas a subcomissão vai ser mantida. Até porque depois de um fato como esses alguns vereadores me parecem até mais motivados. Outros não, estão mais motivados para ajudar o Corinthians. Mas abrir mão de R$ 420 milhões não se justifica.